
Samuel Celestino
Publicado no Jornal "A Tarde", em 1º de setembro de março de 1982
A Igreja terá uma significativa participação na campanha política de 82 e, sem dúvida, influenciará no resultado das urnas com sua nova concepção evangelizadora. Se os religiosos têm, ou não, credencial ou autoridade para forjar a consciência político-partidária do eleitor é outra estória que ninguém, absolutamente ninguém, poderá responder, mesmo porque o assunto é polêmico e a própria igreja está, sobre o assunto, dividida internamente.
A ação das comunidades eclesiais de base alastra-se como fogo na campineira e este fogo tende a ser maior na medida em que se aproxima a época da campanha eleitoral. O presidente do Senado ,Jarbas Passarinho, anda alarmado com a vocação partidária da Igreja, segundo ele manifestamente marxista, posição criticada pelo senador Teotônio Vilela, irmão do cardeal Brandão Vilela, por considerar que a função da Igreja não é proteger os que estão superprotegidos, mas os que estão desprotegidos. Aqui Ana Bahia, o bispo de Juazeiro, D. José Rodrigues, começa a distribuir a cartilha “Polícia; A luta de um povo”, cujo objetivo é criar uma consciência do voto, inexistente no interior do estado.
Sabem os que se dedicam á observação política que o homem interiorano, sobretudo o do nordeste, ainda é manipulado, na sua manifestação política, pelo poder econômico representada pelos donos da terra que, em troca, recebem benesses do poder. Esses favores ancoram na família dos donos dos feudos, que não os transferem para beneficiar, socialmente, e o homem que trabalha a gleba. É um retrato, em branco e preto, do subdesenvolvimento, um sistema injusto que a Igreja deseja quebrar, usando a sua influência que se apóia na fé e na formação religiosa do povo.,
Este trabalho tem um sentido muito positivo. Exigirá que os partidos políticos voltem-se, basicamente, para a angustiante questão social, numa tentativa de romper o círculo vicioso da miséria, que é a tônica do interior do país e das franjas do s grandes centros urbanos.
Formar a consciência política, favorecendo o voto de qualidade, é um trabalho que deve ser aplaudido e louvado. O que a Igreja não deve é dirigir o voto, parlamentar-se com cores partidárias. Pois se agir assim estará pondo em risco a sua própria base que é a fé e se imiscuindo numa atividade que, definitivamente, não é a sua.
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