Cantor do Fantasmão fala da violência de sua pipoca, sobre o Psirico e de sua experiência na prisão


Uma máscara que ultrapassa as suas apresentações e permeia a sua vida. É assim que o cantor da banda Fantasmão, Eddye, vive. Ele, que costuma pintar o rosto para caracterizar a banda, também mascara o rapaz doce e de sorriso largo vindo de Catu. E foi de “máscara” que Eddye recebeu a Holofote para esta entrevista: cabeça baixa, olhar desviado, sorriso de canto de boca e uma timidez que surpreendia. Mas foi por pouco tempo. Logo, Eddye estava se mostrando, olhando nos olhos, conversando prá valer, abrindo sua vida e sorrindo livremente exibindo o menino que está feliz com o que faz e satisfeito com o reconhecimento ao seu trabalho. No entanto, diferentemente das celebridades comuns, a humildade de quem quer galgar aos poucos, conquistar o que merece sem pressa prevalece no falar, no olhar, no agir. Na verdade, ele foge de qualquer estereótipo: é um cantor de pagode que ouve rock, não costuma ficar se requebrando nos palcos e se veste feito cantor de rap, abrindo mão das roupas justas que, geralmente, compõe o look dos pagodeiros que aí estão.


"Eu quis fazer um projeto onde eu pudesse inserir as minhas ideias e montei o Fantasmão"

Coluna Holofote: Como foi que você entrou no mundo da música?
Eddye:
Foi através do meu pai, que sempre fazia sambão. E sambão no interior é feito apenas com instrumento de percussão e quando a gente ia para a praia, ele ia animando o ônibus de pessoas do interior que alugam um ônibus para vir para a praia e aí, os instrumentos ficavam guardados lá em casa, no fundo do quintal e eu, na curiosidade, comecei a pegar, a tentar tocar querendo aprender e aí, já vai fazer 13 anos, no dia 26 de setembro, que eu estou no mundo da música.

CH: Mas você aprendeu a tocar sozinho?
Eddye:
Foi. Na verdade, eu via meu pai tocando e ia mexendo, ia tentando tocar também e, “devagarinho”, eu fui aprendendo. Mas também, eu já fiz aula de violão e de canto, mas por pouco tempo. Quando eu cheguei aqui em Salvador mesmo, eu tentei fazer aula de canto, mas fiz apenas uns dois meses mesmo, porque o professor ficava atrasando o meu lado. Eu queria saber outras coisas e o que ele ficava falando, eu já sabia, e aí, eu larguei, não tive “saco”.

CH: E como você se descobriu cantor? Porque você disse aí que tocava...
Eddye:
Meu forte, meu objetivo principal sempre foi o canto, desde o início. Eu via os instrumentos lá, eu ia tocando, mas sempre cantando também. Porque eu sempre quis cantar. Aliás, meu sonho sempre foi ou ser goleiro ou ser cantor e um deles eu estou tentando ainda...

CH: E como foi que você se profissionalizou, montou uma banda...?
Eddye:
Olha, o Fantasmão tem apenas dois anos e meio e eu já passei por várias bandas, desde o interior. Depois de ter passado por várias bandas de forró, de axé e de pagode, eu vim para Salvador para fazer parte de um grupo aqui em Salvador. Fiquei dois anos nessa banda, saí e, com essa minha saída, eu falei “não, agora eu vou fazer um projeto meu mesmo, um projeto que eu possa inserir as minhas idéias, que eu fique mais à vontade, mais feliz”. E aí eu montei a banda Fantasmão.

CH: E por que esse nome “Fantasmão”?
Eddye:
Ideia minha. Porque, quando eu saí dessa banda que eu falei, algumas pessoas do tipo que batem palma quando você dá uma topada, ficaram falando “bem pouco”, “bem feito”, “aí agora, não vai mais para lugar nenhum”... Aí, eu quis colocar um nome que surpreendesse e que, quando menos esperasse, olha eu aí de novo! Porque fantasma é assim, né? Você nunca espera ver um fantasma... Então, foi por isso, porque muita gente não acreditou, então, eu quis colocar um nome que surpreendesse: Fantasmão, quando menos se espera, a gente aparece.  

CH: E de onde e por que surgiu essa ideia de pintar o rosto do pessoal da banda?
Eddye:
Foi minha também a ideia. Porque assim, eu queria caracterizar o lance do fantasma, porque as crianças adoram, eu acho que elas veem assim, como um personagem e se identificam bastante e eu também acho que tem tudo a ver a pintura com a mortalha...


"Eu já não estava me sentindo bem com aquela mortalha e com a tinta, então tirei"

CH: Então, Eddye, por que você parou de pintar o seu rosto? Foi por vaidade? Para ser reconhecido pelas pessoas?
Eddye:
É... Até em termos de divulgação, eu acho que é uma coisa mais limpa. É legal mostrar o artista para as pessoas. E fora isso, eu tirei porque eu achei que estava na hora de mudar um pouco, porque o Fantasmão é uma metamorfose ambulante. E eu também já não estava me sentindo tão bem com aquela mortalha, com aquela tinta, aí eu resolvi tirar. Porque eu acho que nada supera esse lance de você estar se sentindo bem, porque o mais importante é você se sentir bem.

CH: E aí também, as pessoas passaram a te reconhecer mais, né?
Eddye:
É difícil dizer isso, porque, no momento que eu tirei, foi o momento que a banda estava ficando mais conhecida, ganhando mais projeção, então, eu não sei dizer se foi por causa da tinta ou se foi pelo momento do grupo. Mas, com certeza, sem a tinta, ficou muito mais fácil das pessoas reconhecerem. 

CH: Mas você acha que as pessoas não estão sentindo falta da sua máscara, já que, até seus fãs passaram até a se pintar?
Eddye:
É, em todos os lugares que a gente passa, em qualquer cidade, por menor que seja o show em termos de estrutura e local mesmo, em termos de habitantes, sempre tem gente em cima das lajes, dos muros, onde dá a gente encontra a galera com o rosto pintado. E tem gente que me cobra ainda. Às vezes eu tô no show aí fala “cadê a sua máscara?”, e eu falo assim: “ e cadê a sua também, que eu não estou vendo? Que nada.” (risos).

CH: E afinal, o que é que Fantasmão toca? É rap, é samba...
Eddye:
Olha, nós batizamos de groove arrastado. Foi assim que a gente batizou o nosso estilo. Mas a gente é pluralidade mesmo. A gente é uma mistura devido até às influências. Principalmente eu, que venho liderando o grupo e que canto mesmo, mas todos os músicos tem gostos diferentes e curtem vários estilos. Eu gosto de rap, eu gosto do rock’n roll, de raggae, de axé também... Então, tem vários estilos que eu curto e que eu acabo inserindo no Fantasmão naturalmente.

CH: E você sentiu alguma resistência das pessoas em aceitarem uma banda tão diferente, que mistura tanto os ritmos?
Eddye:
Nós tivemos. Não com os ritmos, mas com o nome em si, porque a gente ficava falando que era “groove arrastado” e aí, algumas pessoas, até companheiros de trabalho mesmo ficavam falando “ah, quer tirar onda; quer dizer que não é banda de pagode, é pagode, sim”, então, tivemos essa resistência até dos companheiros que fazem música também, alguns grupos... Mas são pessoas muito ignorantes para não perceber - porque eu acho, acho não, porque é notório – que é diferente. Nós viemos disso, do pagode, do samba e ainda permanece a batida, o groove, mas tem várias influências, sim. A gente bota a galera para pular nos shows com o rock’n roll, bota a galera para colocar a mão para cima com o rap e com o hip hop, para cantar com o axé, pra pular também, então, a gente faz de tudo um pouquinho. O importante é fazer com responsabilidade e criatividade para não estar copiando ninguém, fazer as coisas do nosso jeito: nosso jeito de tocar rock’n roll, de fazer rap... Então, eu procuro fazer as coisas do meu jeito, do jeito da banda Fantasmão.

CH: Mas então, com o povo, vocês acham que não houve rejeição, que vocês foram logo aprovados?
Eddye:
Eu acho que sim. E a maior prova disso é a projeção do grupo que, a cada dia, graças a Deus, vem crescendo, vem tendo mais fãs e eu costumo dizer que os fãs do Fantasmão você vê, você conhece rápido, porque são fãs mesmo. Os fãs do Fantasmão são fãs de verdade.

 
CH: Quem é que compõe as letras das suas músicas?
Eddye:
Eu tenho algumas músicas aí, a maioria... Mas tem meu amigo, sócio, empresário e parceiro, Franco Daniele, que compõe também músicas como “Eu sou negão”, que é minha e dele; “Dá-lhe”, que é dele, então, ele compõe bastante também. E tem outros compositores também: Neto de Lins, Ivan Brasil, tem Goiaba da Bahia, da banda “Provoca”, tem Mateus, temos vários... Porque a gente não tem aquela coisa... Tipo, a gente compõe, eu e Franco, como donos da banda, mas a gente procura sempre o melhor para a banda, então, se chega um compositor até de fora, que a gente não conhece, mas se a música dele é boa, ou até melhor do que a minha, eu tiro a minha e coloco a dele, entendeu? Porque a gente não está visando aqui o lance do individual, nem vaidades, nem nada do tipo... A gente quer o melhor para o grupo.

CH: E de onde vem sua inspiração?
Eddye:
Como Fantasmão é uma banda que procura falar a realidade do cotidiano das pessoas... Uma vez, numa entrevista, me perguntaram se as letras tinham a ver com o meu dia-a-dia, comigo mesmo... Pode até acontecer de eu compor assim, mas eu procuro falar de uma forma universal, de uma forma geral, do cotidiano da maioria das pessoas. Então, é daí que vem a inspiração mesmo: da vida das pessoas, para tentar melhorar, dar uma voz de conforto e de conscientização também.




"A pior coisa do mundo é hipocrisia.Não estou dizendo que ele (Márcio Victor) é hipócrita"

CH: Você acha que elas, de alguma maneira, fazem apologia à violência?
Eddye:
De forma nenhuma. Se a pessoa vai num show do Fantasmão e procura violência, eu acho que ela já saiu de casa com essa intenção, não tem nada a ver com o show. Tem a questão do ritmo da banda, que é um ritmo frenético, você vê a gente com aquela garra nos shows. Eu costumo dizer que a gente não é aquele time de estrelas, mas é aquele time que corre os 90 minutos e enquanto o juiz não apita dizendo que é o final do jogo, a gente está ali dando o máximo, em respeito aos nossos fãs e também porque a gente gosta de um show para cima, com energia e em momento nenhum a gente fala coisas que venham incitar o público à violência... Só se a pessoa não estiver ouvindo bem. No carnaval, inclusive, eu parei várias vezes pedindo paz e a gente pregou a paz o tempo todo.

CH: Em entrevista ao nosso site, o cantor da banda Psirico, Márcio Victor, disse que as suas letras são muito pesadas e que isso ajuda a aumentar a violência. O que você acha disso?
Eddye:
P&*%, é complicado, né? A pior coisa do mundo, também, é a hipocrisia. Não estou dizendo que ele é hipócrita, eu estou falando que a pior coisa do mundo é a hipocrisia. Porque, ele mesmo me ligou perguntando se eu tinha visto essa entrevista e eu nem tinha visto, olha só... E eu nem tinha visto ainda. E ele me disse que não tinha falado isso*... Aí, eu falei para ele “é, se você está dizendo que não falou, parceiro, não tem essa não, tranqüilo”. E nós não temos nenhuma amizade assim, entendeu? A gente se fala quando se encontra em algum lugar, quando cruza um trio com o outro... Carnaval também, ele mandou mensagem para mim desejando um bom carnaval, eu também desejei para ele toda sorte do mundo, gosto da banda dele, acho uma das principais bandas do segmento e ele é um grande percussionista também, mas ele disse isso para mim... Que não falou isso, que gosta muito do Fantasmão e que acha a música “Kuduro” massa, que depois a gente podia até fazer alguns projetos aí, fazer alguma coisa juntos... E eu falei “to aí, negão, para o que for de bom pra gente fazer, tô à disposição aí”. Mas se ele falou que não falou... (risos)


CH: Agora, Eddye, existem vários vídeos no youtube e eu mesma presenciei várias cenas de violência no carnaval envolvendo os foliões que seguiam o seu trio. E sabe o que fica parecendo? Que os seus “seguidores”, digamos assim, vão para a festa não para brincar, mas para brigar. Por que você acha que isso acontece?
Eddye:
Isso acontece muito como acontece nas comunidades, nos bairros periféricos: muita gente num espaço que teria que comportar menos pessoas e às vezes acontece isso. Porque muita gente aglomerada num local pequeno, é complicado. E isso aconteceu com o Fantasmão, devido ao momento da banda, porque a banda vem crescendo e muita gente acompanha o trio... Foi divulgado e todo mundo viu que a pipoca do Fantasmão foi a maior pipoca do carnaval, então, é praticamente impossível, por mais que eu esteja ali falando, pregando a paz, dizendo que somos todos irmãos, tem gente que está ali bebendo, “comendo água” e que não está nem aí, que, às vezes, só por tomar um pisão no pé, já procura confusão. Então, eu acho que foi devido a isso: à quantidade de gente que acompanhou o trio, que foi uma quantidade muito grande, entendeu? E o ritmo também é frenético, a galera começa a pular... Mas quantas bandas já passaram por isso aí? Chiclete com Banana mesmo e várias bandas de massa já aconteceu isso... Porque muita gente acompanha e é complicado conter. E a gente está ali pregando a paz, mas a gente sabe que o trabalho de conter e inibir a violência é da polícia que, inclusive, eu acho que fez um belíssimo trabalho neste carnaval. O carnaval, em si, foi maravilhoso em termos de estrutura, de segurança, de organização.

CH: E vocês estão esperando levar o “troféu Dodô e Osmar”, que é a premiação oficial do carnaval?
Eddye:
Olha, eu acho que o nosso maior troféu a gente já ganhou, que foi o público mesmo, que reconheceu nosso trabalho e nos acompanhou durante o carnaval... Então, a gente só tem a agradecer mesmo. Mas se vier esse “troféu Dodô e Osmar” vai ser bem-vindo, porque dá um know-how, dá um conceito, afinal de contas, vários artistas já ganharam, então, pra gente vai ser muito importante. 

CH: Agora, tem uma pergunta que eu não tenho como deixar de te fazer e é até bom que você esclarece ao público. É verdade que você é ex-presidiário?
Eddye:
Não, presidiário, não... Eu fui preso, sim, fiquei dois dias, mas foi injustamente, até...

CH: Por qual motivo?
Eddye:
Por porte de maconha. Três dolinhas de maconha, eu e mais dois amigos...

CH: E você já cantava?
Eddye:
Já... Já cantava aqui em Salvador. Aí, depois dessa história é que vieram com um papo de que queriam colocar outro cantor, porque disseram que esse lance de pagode não estava dando certo, queriam concorrer com o axé, aí eu falei “olha, eu não estou acostumado a trabalhar assim, eu vou atrapalhar o grupo e a minha carreira também e eu prefiro sair então... Vocês continuam o caminho de vocês e eu continuo o meu...”


"Eu fui preso injustamente, porque o delegado queria crescer nas minhas costas"



CH: Mas voltando à história da prisão...
Eddye:
É isso... Eu fiquei dois dias preso injustamente, porque não tinha nada a ver, velho, aquele lance ali que fizeram... Eu acho que o delegado na época lá de Catu quis crescer nas minhas costas, porque eu era uma pessoa que estava entrando na mídia e eu acho que ele quis crescer. E tem uma música da gente que é chamada “A lei do retorno”, que é a lei de Deus. Se você faz o bem, você recebe o bem e se você faz o mal, você recebe o mal também e depois ele foi preso como um dos maiores traficantes da região e ficou bem claro quem era o mal-feitor da história. E eu agradeço a Deus por tudo o que aconteceu comigo, até por esse episódio mesmo, porque hoje eu estou muito melhor, a minha situação em todos os aspectos está bem melhor, eu estou bem mais feliz e tudo a partir deste ponto, deste acontecimento. Então, eu só tenho o que agradecer a Deus por tudo o que aconteceu em minha vida: as coisas boas e as ruins, também.

* A Coluna Holofote transcreve as entrevistas na íntegra.


Por Fernanda Figueiredo

 

 

 



Segunda-Feira, 09.03.2009

 


 

 



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"E hoje é dia de Ivete arrasar em Nova York. Go, Ivete! Deus te abençõe".


Claudia Leitte desejando boa sorte para Ivete Sangalo, momentos antes da grande estreia da baiana no Madison Square Garden, em Nova York, marco da sua carreira internacional.

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