
“E não é porque somos da base aliada que iremos esconder nossa insatisfação na segurança que continua a mesma de cinco anos atrás.”
Vereador Moisés Rocha (PT), ao justificar seu projeto de implantação de câmeras em viaturas e alfinetar o próprio governo do seu partido.
Inconcebível, inacreditável, execrável a negociação da prefeitura com os vereadores da Base governista, seguramente excluídos os do PDT, conforme a reportagem do jornal A Tarde e do Bahia Notícias, de oferecer asfaltamento de ruas aos edis, como moeda de troca para evitar a instalação da Comissão Especial de Inquérito (CEI).
Hari Alexandre Brust - Salvador (BA)
LINKS DO PODER
Samuel Celestino, publicado no A TARDE de 16/02/1989
Com apenas um mês de vida, o “Plano Verão” começa a dar visíveis sinais de que tende, inapelavelmente, ao fracasso. O governo Sarney, que depende do seu sucesso para concluir o período de mandato com o mínimo de dignidade e sem o rótulo de incompetência absoluta, é o principal responsável pelo fracasso, se ele vier, efetivamente, acontecer, o que não se deseja. A insensatez não é somente do governo mas, também, do Congresso Nacional que na noite de anteontem rejeitou a medida provisória nº26, que dispõe sobre a privatização de empresas estatais, e derrubou, por decurso de prazo, a nº29, que previa a extinção de cinco ministérios. A sucessão de erros é de arrepiar. O governo, que, ao baixar as medidas provisórias que instituía o “Plano Verão”, contava com o apoio dos empresários e, de certa forma, com a simpatia da classe trabalhadora, perdeu, praticamente, esses aliados. Cometeu a suprema tolice de indiciar o empresário Abílio Diniz, num nebuloso episódio de sonegação de latas de soja, e criar arestas com parte da classe trabalhadora simpática ao choque.A prisão do empresário foi uma ingênua demonstração de que o governo estava vigilante e que não toleraria desvios. Precisava de um exemplo de impacto e nada melhor do que Diniz, poderoso empresário do setor de alimentação. O apoio que de início recebeu foi, pouco a pouco, sendo retirado, a partir de uma escalada de declarações de vários empresários, principalmente do Sr. Mario Amato, presidente da poderosíssima FIESP. Os trabalhadores, com perdas substanciais em seus salários e desconfiados com a manipulação do real índice da inflação de janeiro, se uniram. CUT e CGT acabaram por determinar uma greve geral em todo o País marcada para os dias 14 e 15 de março.
O Sr. Sarney prometeu que o governo cumpriria a sua parte para o sucesso do plano, contendo o déficit público, reduzindo pessoal, fiscalizando, extinguindo empresas devoradoras de dinheiro, enfim, contendo os gastos públicos e combatendo a negligência. Até agora não fez absolutamente nada. E isso se deve, principalmente, à falta de credibilidade deste governo. Ninguém acredita em Sarney, no seu ministério. A administração federal é uma fantasia, é feita de mentiras e engodos.
As instituições brasileiras estão a correr um sério risco. O governo afirma que a possibilidade de uma hiperinflação está ultrapassada, mas não é bem assim. A economia nacional poderá ser completamente destroçada nos próximos meses e já há claros sinais de recessão, conforme acusam os empresários paulistas. O governo parece que pouco está se importando. Na verdade, deseja um processo recessivo para desarticular o movimento trabalhista, partindo do pressuposto de que, no frigir dos ovos e com a recessão instalada, o trabalhador vai preferir assegurar seu emprego a reclamar perdas salariais em razão do choque econômico. Pior é que, da forma como os fatos estão a acontecer, a recessão não estará sozinha e sim acompanhada de uma brutal inflação, se o plano não der resultado.
No plano político, o PMDB, surpreendido com o choque na economia, ficou, a princípio, desnorteado, inclusive alguns progressistas. Perguntava-se como tocar a candidatura Ulysses Guimarães à Presidência, diante da nova realidade. O raciocínio era de que, efetivamente, havia absoluta necessidade de dar-se um choque para conter o processo inflacionário que saíra do controle das autoridades monetárias. Temia-se por uma explosão de resultado inimaginável, e o PMDB teria obrigação de respaldar, no Congresso Nacional, as medidas provisórias baixadas.
Raciocinava-se, também, com a dificuldade de desatrelar o partido do governo, até porque o plano poderia dar certo, o presidente recuperaria parte da sua popularidade e críticas a ele lançadas acabariam sendo negativas para o PMDB. O governador Waldir Pires, que já vinha tecendo ácidas críticas à política econômica de Sarney, principalmente em relação à dívida externa, detectou falhas no “Plano Verão”, acusando-o de ser recessivo.
Waldir parece que acertou na mosca.
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